Mudanças climáticas e o Rio de Janeiro: quando a crise ambiental se transforma em crise social

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Flavio Serafini, deputado estadual PSOL/RJ

As mudanças climáticas deixaram de ser uma preocupação sobre o futuro para se tornarem uma realidade cotidiana no estado do Rio de Janeiro. Nos últimos anos, o aumento da frequência de ondas de calor, chuvas extremas, secas prolongadas, deslizamentos de encostas e inundações demonstra que o clima já está mudando e que seus impactos recaem de forma desigual sobre a população. O Rio reúne características que o tornam especialmente vulnerável: alta concentração urbana, ocupação histórica de áreas de risco, extensa faixa costeira, remanescentes de Mata Atlântica sob intensa pressão imobiliária e forte dependência de recursos hídricos para abastecimento e produção agrícola. Nesse cenário, compreender as causas da emergência climática e construir políticas públicas de adaptação tornou-se uma das tarefas centrais para qualquer projeto de desenvolvimento sustentável.

Os estudos científicos indicam que o aquecimento global intensifica eventos climáticos extremos. Embora fenômenos naturais como o El Niño e a La Niña continuem ocorrendo, eles passam a produzir efeitos ainda mais intensos em um planeta mais quente. O El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, altera a circulação atmosférica em escala global. No Sudeste brasileiro, seus efeitos costumam incluir temperaturas acima da média, ondas de calor mais intensas e alterações importantes no regime de chuvas. Em diferentes episódios registrados nas últimas décadas, o Rio de Janeiro enfrentou verões com calor extremo, tempestades concentradas em curto espaço de tempo e períodos de estiagem que comprometeram o abastecimento de água e a produção agrícola.

O El Niño, portanto, não é a causa das mudanças climáticas, mas um fenômeno natural que passa a atuar sobre um planeta já aquecido pela emissão crescente de gases de efeito estufa. O resultado é um aumento da intensidade dos eventos extremos. Quando uma frente fria encontra uma atmosfera mais quente e carregada de umidade, as chuvas tendem a ser mais intensas. Da mesma forma, as ondas de calor tornam-se mais duradouras e perigosas para a saúde da população, especialmente idosos, crianças, trabalhadores expostos ao sol e pessoas que vivem em áreas com pouca arborização.

No estado do Rio de Janeiro, os impactos dessa combinação são evidentes. Municípios da Região Serrana convivem frequentemente com deslizamentos de terra e enxurradas. Na Baixada Fluminense e na Região Metropolitana, as enchentes provocam perdas materiais, interrupção do transporte público e riscos sanitários. No Norte Fluminense, alternam-se períodos de seca e chuvas intensas, prejudicando a agricultura familiar. Nas regiões costeiras, o avanço da erosão marinha e a elevação gradual do nível do mar ameaçam praias, restingas, manguezais e comunidades tradicionais.

Esses impactos não atingem todas as pessoas da mesma maneira. Existe uma profunda relação entre crise climática e desigualdade social. A população de baixa renda, moradores de periferias, comunidades tradicionais, agricultores familiares, pescadores artesanais e povos indígenas encontram-se entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas. A ocupação de encostas, margens de rios e áreas sujeitas a alagamentos é resultado de décadas de desigualdade urbana, déficit habitacional e ausência de planejamento territorial, fazendo com que justamente quem menos contribui para a emissão de gases de efeito estufa seja quem mais sofre suas consequências. 

Dados do Atlas Digital Desastres do Brasil, revelam que na região sudeste, em 2025, 779 mil pessoas foram diretamente afetadas por eventos climáticos, das quais 30.280 ficaram desalojadas ou desabrigadas. O Atlas informa ainda que, desde o início da série histórica, no Rio de Janeiro, cerca de 950 mil foram afetadas diretamente e mais de 644 mil ficaram desabrigadas e desalojadas por conta de chuvas e deslizamentos. 

Por isso, emergência climática não pode ser enfrentada apenas com respostas emergenciais após cada desastre. É necessário transformar o modelo de desenvolvimento, fortalecendo políticas estruturantes capazes de reduzir vulnerabilidades e aumentar a capacidade de adaptação da sociedade. Entre essas políticas destacam-se o fortalecimento da agroecologia, da agricultura familiar, da produção local de alimentos e da recuperação ambiental dos territórios.Investir na agroecologia significa gerar trabalho e renda, ampliar a segurança alimentar e construir sistemas produtivos mais resilientes às mudanças do clima, além de reduzir a dependência de modelos agrícolas altamente emissores de carbono.

Outro aspecto relevante é a defesa das áreas verdes e dos recursos hídricos, ameaçados frequentemente pela especulação imobiliária, a flexibilização das normas ambientais e grandes empreendimentos que vêm ampliando pressões sobre ecossistemas estratégicos, como lagoas, baías, áreas de preservação permanente e unidades de conservação. A preservação desses ambientes não possui apenas importância ecológica. Manguezais, restingas, florestas e matas ciliares funcionam como infraestrutura natural capaz de reduzir enchentes, estabilizar encostas, proteger a biodiversidade e garantir maior disponibilidade de água para abastecimento humano.

O fortalecimento das políticas de adaptação aparece como outro eixo fundamental. Nosso Mandato já produziu iniciativas legislativas voltadas à criação de sistemas estaduais de contingência para cenários de altas temperaturas e de alta pluviosidade, ao reconhecimento da emergência climática, à transição energética nas escolas públicas e ao monitoramento permanente dos investimentos estaduais destinados ao enfrentamento das mudanças climáticas. Essas propostas representam uma mudança importante de paradigma, pois reconhecem que os eventos extremos deixarão de ser exceções e passarão a exigir planejamento contínuo do poder público.

A adaptação, entretanto, precisa ser acompanhada por medidas de mitigação das emissões. O impacto de grandes empreendimentos industriais e energéticos na emissão de gases de efeito estufa e na degradação ambiental do estado, defendendo maior controle sobre atividades altamente poluentes e uma transição para formas mais sustentáveis de produção de energia. Também ressalta a importância da educação climática como instrumento para formar novas gerações capazes de compreender os desafios ambientais e participar da construção de soluções coletivas.

No contexto do El Niño, essas políticas tornam-se ainda mais relevantes. Os períodos de calor extremo exigem planos de proteção à saúde pública, ampliação da arborização urbana, criação de ilhas de conforto térmico e adaptação das escolas e equipamentos públicos. As chuvas intensas exigem sistemas modernos de alerta, obras de drenagem, recuperação de encostas, ampliação do saneamento básico e proteção dos rios urbanos. A agricultura precisa incorporar tecnologias adaptadas às novas condições climáticas, enquanto o planejamento urbano deve impedir novas ocupações em áreas sujeitas a riscos geológicos e hidrológicos.

O Rio de Janeiro possui conhecimento científico, universidades, centros de pesquisa e capacidade institucional para liderar políticas inovadoras de enfrentamento da crise climática. No entanto, a dimensão do desafio exige coordenação permanente entre Estado, municípios, comunidade científica e sociedade civil. As mudanças climáticas não representam apenas uma questão ambiental; constituem um problema econômico, social, sanitário e de direitos humanos.

O estado já sente os efeitos de um clima mais quente, mais instável e mais desigual. Fenômenos naturais como o El Niño continuarão ocorrendo, mas seus impactos tendem a ser potencializados pelo aquecimento global provocado pela ação humana. Por isso, enfrentar a emergência climática significa investir em prevenção, adaptação e redução das emissões, mas também combater desigualdades históricas, fortalecer políticas públicas de proteção ambiental e promover um modelo de desenvolvimento capaz de conciliar justiça social, preservação da natureza e qualidade de vida para as futuras gerações.

O RJ é o Estado onde mais morrem pessoas vítimas de consequência dos eventos climáticos extremos e a unidade da federação que mais produz petróleo, por isso mesmo refletir sobre os eventos extremos e adotar estratégias preventivas é, também, pensar em um novo modelo econômico de desenvolvimento para o nosso Estado.

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