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Ocupa Dops mostra realidade de ontem e hoje

As violências cometidas por agentes do Estado são marcas de nosso passado e presença constante ainda hoje para uma parte específica da população negra, pobre e favelada. Embora a tortura seja considerada crime desde 1988 ainda hoje nos deparamos com casos como o de Buba Aguiar, moradora de Acari e integrante do movimento Fala, Acari!. Buba foi sequestrada, presa e torturada em abril do ano passado, quando estava saindo de casa para ir ao trabalho. De acordo com a militante, esse crime foi praticado como forma de silenciá-la. “Me levaram para uma antiga fábrica, na qual estavam vários corpos em putrefação. Lá me torturam física e psicologicamente. Me obrigaram a comer um papel que tinha um artigo sobre a chacina que eu denunciava pelo movimento que faço parte”, relembrou e completou: “Me perguntaram se eu continuaria fazendo o que eu faço. Passei por vários problemas psicológicos até hoje. Não durmo direito, sonho com os policiais e não me lembro do que aconteceu. E ainda sofro ameaças dentro de casa. Há pouco tempo cerca de 10 policiais entraram na minha casa e me violentaram sexualmente”.

A violência de Buba é bem próxima da vivida por Inês Etienne, também lembrada no ato realizado no dia 01 de julho em frente ao Museu da Polícia Civil, centro do Rio de Janeiro. Inês foi também a última presa política da ditadura civil-militar libertada no Brasil. Durante os oito anos de prisão, ela foi torturada de diferentes maneiras e estuprada por diversas vezes.

Esses e outros casos foram relatados na ocasião organizada pelos movimentos Coletivo RJ – Memória, verdade e justiça, Ocupa Dops e Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça. O coletivo reivindica que o antigo Dops, hoje museu da Polícia Civil, seja transformado em um espaço de produção cultural e memória. Entre as propostas de ocupação do espaço estão a exposição permanente sobre a repressão, com eventos culturais, espaço para estudos e biblioteca especializada nos temas, disponibilidade de acervos da repressão no Rio de Janeiro e do material das Comissões da Verdade para consulta pública e digitalizada, entre outros. O movimento entende que as torturas praticadas nos dias de hoje têm relação direta com as do passado. O silenciamento dos casos de ontem podem endossar os crimes de hoje.

O ato contou ainda com a presença da campanha Liberte Nosso Sagrado, uma campanha do movimento negro, das lideranças religiosas da Umbanda e do Candomblé, pesquisadores e do mandato coletivo Flavio Serafini. A campanha tem como propósito realocar os objetos sagrados das religiões afro-brasileiras que se encontram no Museu da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Esses objetos foram apreendidos na primeira metade do século XX, quando as religiões de matriz africana eram criminalizadas. Defendemos que esse acervo sagrado e histórico de matriz africana deve ser realocado em um museu em que a guarda seja compartilhada com as lideranças religiosas e acessível aos pesquisadores. Das ações do passado que repetem nos tempos atuais, em 2016, em Sergipe, atabaques forma apreendidos

 

“A libertação dessas peças trata-se de nossa ancestralidade. Todos temos que nos unir. Essa ancestralidade mexe dentro de nossos corações. Prender essas peças é um sacrilégio que não tem palavra. Isso é preconceito religioso sem tamanho”, refletiu Luizinha de Nanã. Luizinha lembrou ainda que 77% das denúncias de agressões e violência no disque 100 são contra as religiões afro-brasileiros. “Sou negra, sou mulher, sou candoblecista e minha força ninguém tira, porque tudo faz parte do meu sagrado”, lembrou.