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A história de luta da Heloisa Helena Costa Berto, a Yalorixá Luizinha de Nanã, – que recebeu o Prêmio Dandara da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) concedido aos que empregam esforços na valorização da mulher afrodescendente, latino-americana e caribenha no estado – se confunde com a história da comunidade Vila Autódromo, bairro de Jacarepaguá, município do Rio de Janeiro. Pois lá era na beira da Lagoa de Jacarepaguá que estava a casa de camdomblé de Nanã, removida covardemente pela Prefeitura do Rio, num processo violento, extremamente desrespeitoso com a religião da agraciada e muito traumático. A iniciativa de homenageá-la partiu do deputado estadual Flavio Serafini (PSOL/RJ).

A cerimônia de entrega aconteceu na noite de ontem repleta de emoções e energia. A mesa foi composta pelo próprio deputado, pela defensora pública e superintendente do INCRA-RJ Maria Lucia de Pontes, a moradora e lutadora Maria da Penha Macena e a historiadora Katiuscia Quirino Barbosa. Flavio Serafini abriu a cerimônia enfatizando a importância de recontarmos nossa história que também foi construída por mulheres, negros e negras e indígenas, diferentemente de como ela é apresentada nos livros de história. “A nossa história não é a dos dominadores. Precisamos registrar também a trajetória de luta dessas pessoas que foram atacadas e apagadas dos registros formais”, defendeu. Para a defensora pública Maria Lucia de Pontes, os negros e negras são os mais sofrem nesse processo de gentrificação. “As violações também são marcadas por preconceito racial. A gente se envergonha por tudo que se passou na cidade do Rio de Janeiro”, refletiu emocionada.

A historiadora Katiuscia trouxe à tona o processo violento em que a população negra ainda é a principal vítima. “De acordo com o relatório da Anistia Internacional, 77% dos jovens que morrem são negros. Isso é extermínio da população negra”, informou e completou: “Vivemos um processo de exclusão permanente e precisamos repensar nosso papel na sociedade. Se somos alvo de preconceito religioso até hoje devemos culpabilizar, por exemplo, a igreja católica que tanto nos demonizou, dizendo que éramos sem alma”.

Dona Penha, vítima desse processo truculento na Vila Autódromo assim como Luizinha, lembrou do que elas passaram juntas. “Foram 23 anos de pesadelo. Muito triste não ter tranquilidade de estar em casa. Todos lá eram muito unidos Éramos uma família e lutamos como guerreiros”, lembrou.

Durante a cerimônia a Companhia Musical Awure e a Oficina Jongo Sopro de Gaia deram um toque especial à homenagem.