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Desastre maricaense


Maricá ainda contabiliza os prejuízos resultantes da intensa chuva que caiu sobre a região metropolitana do Rio de Janeiro na última segunda-feira, dia 29. A cidade litorânea, em especial, foi a mais afetada, tendo registrado índices pluviométricos de 170 mm, o segundo maior naquela noite. O distrito de Itaipuaçu, por exemplo, mesmo cinco dias após o temporal, ainda registra pontos de alagamento, sendo o Residencial Carlos Marighella, empreendimento do Minha Casa Minha Vida, o ponto mais crítico.

Considerando-se a realidade do município, isto é, a sua discreta taxa de urbanização e a sua quase nula rede de drenagem e de saneamento básico, será mesmo que podemos estar surpresos com esse atual desastre?

O atual governo terá completado ao fim de 2016 o seu segundo mandato. São 08 anos no poder com a adoção de práticas políticas extremamente questionáveis, que se sustentam principalmente a partir de um marketing intenso para encobrir a sua incompetência à frente da gestão municipal. O portal da transparência municipal, por exemplo, registra um aumento significativo da arrecadação nos últimos anos, o que, infelizmente, não resulta em uma melhora impactante da qualidade de vida da população. Sofremos com o transporte precário, com a saúde em péssimas condições e a sua oferta restrita a poucas localidades da cidade, com a educação sucateada, devido a salas superlotadas e a alunos estudando em contêineres, e, agora, com alagamentos de grandes proporções. O cidadão maricaense sente na pele esses problemas, todos os dias.

Ainda assim, a prefeitura, parecendo ignorar o sofrimento da população, nos impõe projetos de “desenvolvimento” que podem piorar ainda mais as nossas vidas. A construção do Porto de Jaconé, o início das operações do Duto do Comperj em Itaipuaçu, a construção do Emissário de Esgoto da Barra de Maricá e a implantação do Resort na restinga de Zacarias são apenas algumas das ameaças à natureza singular de nossa cidade, as quais, saindo do papel, prejudicarão ainda mais a nossa qualidade de vida, pois representam uma verdadeira catástrofe para nossas lagoas e para nossas praias.

A condução dos rumos de Maricá nos últimos e o desastre provocado pelas chuvas no início desta semana mostram como a ausência de uma política de planejamento urbano pode destruir vidas e sonhos, principalmente se não considerar o aspecto ambiental. A prefeitura orgulha-se de ter asfaltado mais de 400 km de ruas, alardeia aos quatro ventos que zerou o déficit habitacional da cidade com a construção dos conjuntos habitacionais do Minha Casa Minha Vida em Itaipuaçu e em Inoã.

Entretanto, não trabalha com a verdade dos fatos, afinal as centenas de quilômetros de asfalto não vieram acompanhadas de drenagem adequada e de saneamento básico. Os condomínios de Itaipuaçu e de Inoã sofrem, desde a sua inauguração, com problemas de abastecimento de água e de esgotamento sanitário. A situação em Itaipuaçu é ainda mais dramática. O distrito foi a região da cidade mais afetada pelo grande temporal. A tragédia, porém, se não poderia ter sido totalmente evitada, ao menos poderia ter tido proporções bem menores, caso não tivéssemos um governo negligente e preocupado principalmente com a eleição de seu sucessor.

O Residencial Carlos Marighella está situado na Reserva Verde, uma bela região de Itaipuaçu, aos pés da Pedra de Itaocaia. Porém, a localidade é uma das mais baixas do distrito e já havia sofrido com grandes alagamentos em 2010.

Orçado em mais de R$ 100 milhões de reais, os apartamentos foram destinados principalmente a famílias de baixa renda, algumas, inclusive, marcadas por outra tragédia em um passado recente: o desmoronamento do Morro do Bumba, em Niterói. A irresponsabilidade do poder público local não pode ser ignorada pela população maricaense. Na mesma ocasião em que houve aquele desastre niteroiense, a localidade onde hoje existe esse condomínio enfrentou uma terrível enchente. Moradores tiveram de ser resgatados com auxílio de barcos, com água até quase o teto de suas casas. Isso prova que a prefeitura sempre soube que essa região é alagadiça. Mesmo assim, permitiu que fossem gastos milhões na construção dos apartamentos e praticamente nada em drenagem para evitar o caos que se instaurou no local. O caráter eleitoreiro da obra parece indicar que para o atual governo a vitória na eleição vale mais do que a vida das pessoas. Por isso, não podemos aceitar que toda essa situação seja tratada como um desastre natural, apesar da intensa chuva que atingiu o município. Houve, na verdade, negligência e descaso, somados à falta de um plano de ocupação territorial sustentável e a uma forma de pensar a cidade que não considera de modo efetivo a participação de seu principal elemento: o povo!

Victor Freitas

Sobre o autor

Victor Freitas é morador de Itaipuaçu há 11 anos. Professor da UFRJ e da Rede Estadual, é estudante de pós-graduação em Gestão Pública Municipal na UFF e graduando em Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social na UFRJ. Ele é integrante do PSOL Maricá.