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Dia Internacional da Mulher – Não há igualdade

O texto a seguir foi produzido por militantes feministas da equipe do mandato para ser lido por mim hoje em plenário. Infelizmente o tempo da sessão se esgotou e não foi possível lê-lo no dia de hoje, Dia Internacional das Mulheres. Segue então, na íntegra:

“Hoje não é um dia de felicitações, não é um dia pra bombons e flores. Hoje é um dia de mobilização das mulheres, um dia de resistência, de luta, de memória das centenas, milhares, milhões de mulheres morreram nas lutas por libertação e por mais direitos – e que, como vemos, ainda não são suficientes.

Hoje, as mulheres não querem os seus “parabéns”. Elas querem que os homens parem as violências contra as mulheres. Aliás, poderíamos aproveitar o dia de hoje pra pedir 24 horas de trégua. 24 horas sem violência contra as mulheres. Que os homens, o Estado, a polícia, a guarda municipal, o Exército, as Prefeituras parem as violências contra as mulheres e contra as classes oprimidas. Porque o extermínio da juventude negra também extermina as mães e avós negras, as condena a uma vida de mais solidão e dor. Porque a destruição de um rio pela fome devoradora das indústrias extrativas é também a destruição das famílias de ribeirinhos e pescadores artesanais de seu entorno, como vemos a TKCSA fazer em Santa Cruz, como vimos a Samarco, da Vale, fazer no Rio Doce. Porque as remoções forçadas obrigam as mulheres pobres e periféricas, chefes de família, a resistir e se organizar nos seus territórios contra as investidas violentas do capital e do estado. Tudo ao mesmo tempo em que resistem em suas lutas consideradas “privadas”, ao mesmo tempo em que sobrevivem aos assédios, à violência doméstica, aos abusos cotidianos, aos estupros. Ao mesmo tempo em que não sobrevivem.

O dia de hoje existe porque as mulheres sabem que não há trégua. Hoje, no Estado do Rio, não houve trégua.

Após anos de intimidação, ameaças, perseguição e violência, a Prefeitura retornou à Vila Autódromo hoje muito cedo. Não era para prestar homenagem às mulheres guerreiras da Vila Autódromo, como a Dona Penha, de 50 anos, liderança comunitária que hoje será homenageada aqui na ALERJ pelo seu papel na resistência histórica da Vila. Hoje, às 6h da manhã, a tropa do Eduardo Paes tinha outros planos: demoliu a casa da Dona Penha em poucos minutos e cercou a casa da moradora Rafaela, mãe de 4 filhos, que amamenta ainda seu bebê de um mês, causando pânico entre as moradoras e moradores. A Vila Autódromo e suas muitas apoiadoras, pesquisadoras, professoras, estudantes e parlamentares realizaram ao longo dos anos ocupações artísticas, festivais, campanhas virais pedindo que o Prefeito pare com a violência e cumpra a promessa de urbanizar a Vila Autódromo. Mas pras mulheres do Rio de Janeiro, como demonstrou o caso Pedro Paulo e como nos recorda a foto da Dona Penha com rosto sangrando depois de uma das muitas incursões violentas da guarda municipal à sua comunidade, a tropa do Eduardo Paes e do PMDB tem outros planos: não há trégua, não há diálogo, só violência. Se a violência contra as mulheres e famílias da Vila Autódromo não tem trégua, também não deve haver sossego para o governo municipal!

Hoje, o Exército também deu seu recado pras mulheres na comunidade tradicional da Aldeia do Imbuhy, em Niterói. Comunidade remanescente de pescadores que existe desde antes da construção do Forte do Imbuhy, onde foi bordada a primeira bandeira do Brasil, declarada comunidade tradicional e tombada por lei municipal. Mais de 20 famílias foram despejadas da Aldeia do Imbuhy ao longo de 2015, em ações truculentas das Forças Armadas, feitas com portões fechados à sociedade, à imprensa e ao poder legislativo: nós, do PSOL, tentamos acompanhar esses despejos e demolições para assessorar as famílias e garantir direitos, mas fomos barrados sucessivas vezes. As violências no Imbuhy acontecem às portas fechadas: nosso exército mudou muito pouco. Hoje, não foi diferente. As famílias de duas moradoras do Imbuhy amanheceram, no dia de LUTA das mulheres, com tropas militares, caminhão de mudança e ambulância na porta de casa (uma delas, idosa, havia retornado recentemente do hospital). Estão sendo despejadas, tendo suas casas lacradas pra demolição e não há plano de reassentamento, não se sabe pra onde essas famílias vão. Não há “coração valente” em defesa do Imbuhy, o governo federal permanece em absoluto silêncio. Se a violência contra as mulheres e famílias do Imbuhy não tem trégua, também não deve haver sossego para o Exército e nem para o governo federal!

E como as mulheres sabem que não há trégua, a resistência feminista também não tem descanso. Hoje, as mulheres atingidas por barragens realizam atos no Brasil inteiro, inclusive no Rio de Janeiro, demandando a punição da empresa Samarco (da Vale do Rio Doce) pelos crimes cometidos contra o Rio Doce, contra a natureza e contra as populações atingidas. Hoje, as mulheres também vão ocupar as ruas relembrando que:

Não há igualdade enquanto não houver aborto legal, seguro e gratuito;

Não há igualdade enquanto meninas e mulheres não puderem caminhar nas ruas com segurança e tranquilidade;

Não há igualdade enquanto não houver licença-paternidade e divisão das tarefas domésticas;

Não há igualdade enquanto não houver creches e escolas públicas para todas e todos;

Não há igualdade enquanto as mulheres forem escravizadas pra fazer dentro de casa os trabalhos que os homens e o Estado se recusam a fazer;

Não há igualdade enquanto esta casa legislativa for majoritariamente masculina e conduzir comissões como a CPI do Aborto, sem ouvir as mulheres e indicando pras suas vidas um projeto de lei que não traz mais direitos, autonomia e acesso à saúde, mas mais vigilância, controle, humilhação, punição e criminalização;

Não há igualdade se o trator da especulação imobiliária, do Exército, do Eduardo Paes, do Pezão, do Governo Federal continuar avançando sobre as vidas das mulheres, os rios, os territórios populares e tradicionais.

Se não há igualdade e libertação das mulheres, nós também não daremos trégua ao governo! As mulheres querem mais direitos e, enquanto houver violência, haverá resistência feminista, haverá luta! Nem uma mulher a menos!”

‪#‎EquipeDeMulheresFlavioSerafini‬