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Que a voz da Gilmara ecoe

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Foto: Octacílio Barbosa

A noite do dia 8/12 vai entrar na história do Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Foi nesta data que, pela primeira vez, uma transexual recebei a maior condecoração cedida pelo Poder Legislativo fluminense. A ativista Gilmara Cunha, homenageada da noite, tem uma história de luta com a comunidade LGBT e de favelas e é fundadora do grupo Conexão G.gilmara

Ela, carregada de emoção, aproveitou a sua fala para contar um pouco de sua história. Como moradora de favela, disse que a luta era ainda mais árdua porque além de conseguir assumir sua identidade, ela ainda tinha que sobreviver diante da violência do Estado. Para ela, essa homenagem vai além porque passa a dar visibilidade a uma parcela da população que é invisibilizada. “Acredito que isso é só um passo na construção de novas políticas públicas”, discursou.

A presidente do coletivo TransRevolução, Indianara Siqueira, que fez parte da mesa afirmou que todas as transexuais do país estavam representadas hoje por essa homenagem. “Sempre somos barradas em casas como essa por não estar vestido adequadamente, por transfobia mesmo. E ainda não nos vemos representadas em políticas públicas pensadas para nós. Que essa homenagem seja apenas o começo da nossa conquista de direitos. Que a voz de Gilmara ecoe”, afirmou Indianara.

Alessandra Ramos, representante do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), falou que o simbolismo dessa homenagem abria portas para muitas disputas no parlamento estadual. “O direito de ser quem somos, de existir, não deveria ser apenas objeto de discussão, quando é, deveria ser direito garantido”, refletiu e interou: “Gilmara se destacou pela qualidade de seu trabalho, pela garra e pela sua luta”.

O deputado Flavio Serafini, autor do projeto de resolução que concedeu a medalha à Gilmara, enfatizou que o mandato quer representar todas e todos. “A gente tem que escolher um lado e o nossos é muito claro, por isso fortalecemos essas lutas. As transexuais são uma das principais vítimas no processo de segregação e de violência que sofremos nesse país”, refletiu.

Para se ter uma ideia, somente em 2014 foram documentados 326 mortes de gays, travestis e lésbicas no Brasil, incluindo 9 suicídios. Um assassinato a cada 27 horas. Um aumento de 4,1 % em relação ao ano anterior. O Brasil continua sendo o campeão mundial de crimes motivados pela homo/transfobia: segundo agências internacionais, 50% dos assassinatos de transexuais no ano passado foram cometidos em nosso país. A subnotificação destes crimes é notória. O Brasil é país onde mais ocorrem assassinatos de travestis e transexuais em todo o mundo. Um dado ainda mais alarmante foi divulgado pelo Coletivo TransRevolução: a expectativa de vida de uma travesti ou transexual brasileira gira em torno dos 30 anos, enquanto a expectativa de vida da população média é 74,6 anos. O estigma atribuído a travestis e transexuais brasileiras resulta ainda na ausência de oportunidades de trabalho, mantendo na faixa de 90% o índice de pessoas trans em um único segmento profissional, na informalidade e na maioria das vezes sem condições de acessar direitos trabalhistas e seguridade social – a prostituição.

Em sua atuação na Alerj, Flavio já protocolou três projetos de lei que trata a temática. O PL 392/2015 institui a campanha permanente de combate ao machismo e valorização das mulheres na rede pública estadual; o PL 545/2015, que dá incentivo fiscal às pessoas jurídicas que contratarem profissionais travestis, transexuais ou trânsgeneros no que concerne ao recolhimento do imposto sobre propriedade de veículos automotores (IPVA) e o PL 1003/2015, que estabelece os parâmetros para o acolhimento da população LGBT em situação de privação de liberdade no sistema penitenciário do estado do Rio de Janeiro.

gilmara2Quebrando ainda mais o protocolo da casa, durante a cerimônia a dupla Julio Nascimento e Alessandra Trindade, do Conexão G, se apresentou com passos de funk ao som Anitta e Lexa no plenário conversador da Alerj.

Ainda faziam parte da mesa, o coordenador do programa Rio Sem Homofobia do Governo do Estado, Cláudio Nascimento; Jherry Barbosa, representante do Projeto Alfa Coletivo de Juventude de Rio das Pedras; e Flávio Rufino, do Coletivo LGBT da Cidade de Deus.

 

Sobre o Conexão G

Gilmara fundou o Conexão G em 2006 e transformou esse espaço em uma organização independente e importante na defesa de direitos humanos, combate à violência contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros e a divulgação de iniciativas de saúde como a precaução de AIDS e Hepatites Virais. Além desta atuação na liderança jovem LGBT, que se destaque no espaço de favelas e fora dele, faz parte ainda do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve).