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Inês Etienne, presente!

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A emocionante cerimônia de entrega da Medalha Tiradentes póstuma à Inês Etienne. ex-guerrilheira e única sobrevivente da Casa da Morte em Petrópolis (RJ), proposta pelo mandato coletivo Flavio Serafini (PSOL/RJ) e realizada na noite do dia 16/9 na Alerj trouxe à tona a importância de resgatar essa memória que ainda têm feridas não cicatrizadas.

Na mesa, a irmã Lúcia Romeu, João Batista Damasceno (Juiz do TJ/RJ), Jean Costa (Centro de Defesa dos Direitos Humanos), Elizabeth Silveira (Grupo Tortura Nunca Mais), João Tancredo, do Instituto dos Defensores dos Direitos Humanos (DDH) e Vera Durão (Comissão Estadual da Verdade). Na plateia, mais de 150 pessoas, entre amigos, familiares e aqueles que acreditam na importância do resgate à memória e da luta contra violência do Estado.

Para Flavio Serafini, que presidiu a mesa, é fundamental relembrar esses casos dentro do contexto atual, em que a violência de Estado está cada vez maior. “Estamos vivendo uma democracia de baixa intensidade. As pessoas estão perdendo a vergonha de fazer o terror. Este é só um pequeno passo nessa luta”, afirmou o deputado.

Vera Durão, emocionada ao lembrar de sua amiga, também reforçou a importância do evento. “Inês passava em nossas casas para nos buscar para reuniões. Ela era forte e determinada. Iniciativas como esta são de extrema relevância para não esquecermos o que vivemos e evitarmos que esse capítulo se repita”, informou. A representante do GTNM lembrou quea primeira medalha Chico Mendes entregue foi à Inês, mas que precisamos avançar nessa temática. “Os torturadores ainda não responderam pelos crimes bárbaros. E as famílias ainda estão em busca desses militantes”, refletiu Elizabeth, que completou: “Essa história ainda não acabou. Hoje não temos casa da morte, mas becos, ruas, esquinas da morte”.

O juiz do TJ/RJ João Batista Damasceno fez questão de mostrar como essa realidade está mais próxima do que a gente imagina. “Estamos vendo os mesmos grupos, representando os mesmos interesses colocando suas garras de fora. Naquele momento eles estavam querendo impedir um projeto de Brasil para os brasileiros. Hoje vemos a mesma coisa. Essas pessoas não podem sair às ruas com a bandeira do Brasil pedindo por atrocidades. Eles não podem falar por nós”, avaliou.

Seguindo essa mesma lógica de retomar ao passado para compreender o presente, o advogado João Tancredo, do DDH, relembrou uma fala da companheira de Amarildo, Elizabeth Gomes: “antes eram torturados e mortos por serem contra os governantes. Hoje pela cor de sua pele”. Para ele, o que temos hoje não pode ser considerado uma democracia constituída. “Nesse exato momento temos uma pessoa sendo torturada porque é negro e pobre. Retrocedemos em nossas garantias de direitos. E está difícil nos reunirmos por um inimigo em comum. Nosso inimigo está pulverizado. Devemos sempre lembrar: Inês não está morta”, concluiu.

Inês foi torturada, humilhada e estuprada durante 96 dias na década 1970. E ainda foi a primeira mulher a ser condenada à prisão perpétua no Brasil. Inês morreu em Niterói, em abril deste ano, aos 75 anos.