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“Cadê nossos direitos?”


manguinhosFoi assim que Ana Paula, mãe de Jonathan de Oliveira Lima, 19 anos, assassinado com um tiro nas costas em uma operação de policiais fez a sua intervenção no Ato Contra a Violência de Estado realizado no dia 15/9, em frente à Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fiocruz para relembrar a morte de Cristian Andrade, 14 anos, assassinado na semana passada enquanto jogava bola em Manguinhos.

Ana, assim como muitas mães de meninos jovens, negros e favelados, apresentou sua realidade. “Nossa realidade é muito dura. Não pude viver o luto do meu filho porque tive que lutar para haver justiça em sua morte, porque para um menino negro a justiça não é uma coisa dada. E isso é culpa da sociedade que é racista e bate palma quando vê mais um corpo preto no chão dentro da favela”, lembrou e complementou: “Criminalizar é fácil. Mas viver a nossa realidade ninguém quer. Não é dentro da favela que se combate o tráfico de drogas. É nas fronteiras e todo mundo sabe disso”.

Mônica Cunha, coordenadora do Movimento Moleque, lançou uma pergunta no ato que contava com trabalhadores e estudantes da Fiocruz, além de moradores de Manguinhos: “Qual é a cor dos jovens que engrossam os cemitérios?”, e completou: “Estamos vivendo um genocídio. Meu filho cumpria pena por ter realizado um ato infracional. E já ouvi muito que eu era mãe de bandido e por isso ele morreu. Eu, como todas as mulheres negras, não tivemos oportunidades, temos que trabalhar para sustentar nossas famílias e, por isso, não pude acompanhar meu filho do jeito que gostaria. Mas isso não dá o direito de ele ser assassinado. Ele devia cumprir a sua pena, e só”, lembrou Mônica.

O deputado estadual Flavio Serafini contextualizou o momento em que estamos vivendo de banalização da morte. “De todas as mortes contabilizadas atualmente no Brasil, 20% é de jovens negros. E de cada cinco mortes, uma é provocada pelo Estado. 99% das execuções não são investigados e o que isso significa? Uma verdadeira licença para matar”, declarou Serafini. Para ele, o enfrentamento ao discurso punitivista é uma batalha diária. “Precisamos combater essa lógica armamentista porque estamos vendo nossos jovens sendo exterminados, perdendo suas vidas, seus sonhos”.

O ato foi realizado pelo Comando de Greve da Fiocruz, que está em paralisação há dois meses. O presidente da instituição, presente no encontro, comprometeu-se a intervir institucionalmente com criação e fortalecimento de mais Caps AD, além de articulação política para o combate à violência.