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“A favela tem que gritar junto com o asfalto: a cidade é nossa”

cidade_fosse_nossaSe a cidade fosse nossa? Se pudéssemos opinar pelos rumos dos investimentos públicos, das prioridades do governo, da pedagogia de nossas escolas, da gestão das unidades de saúde e nas formas de cuidado, das atividades culturais e esportivas, do planejamento urbano e habitacional? Essa reflexão foi colocada na última segunda-feira, dia 15/6, no lançamento do movimento Se a cidade fosse nossa, que pretende pensar e intervir nos rumos da cidade do Rio de Janeiro, considerada a cidade mais cara do país e o mais claro exemplo de que os interesses dos megaempreendimentos e megaeventos estão sendo prioridades em detrimento das pessoas que vivem nela. Na mesa, o filósofo Vladimir Safatle, a urbanista Raquel Rolnik, a coordenadora do Movimento Moleque, Monica Cunha e o deputado estadual Marcelo Freixo debateram cenários e propostas.

Na abertura, o professor Tarcisio Motta leu o manifesto que apontava o objetivo do movimento em criar uma estratégia de mobilização popular para superar o atual modelo de cidade, “baseado na falta de transparência pública, na desigualdade social, na destruição ambiental, no patrimonialismo, no racismo, no machismo, na homofobia e no fundamentalismo religioso”. A representante do PSOL Carioca Verônica Freitas lembrou a importância destes próximos anos e como ele será determinante para os rumos do Rio de Janeiro. “O Rio tem sido o laboratório dos negócios e também das resistências. Precisamos muito refletir sobre o que queremos para a nossa cidade”, afirmou.

Vladimir Safatle, em sua exposição, afirmou que devemos acreditar no poder de transformação, se não haverá mais espaço para a esquerda no Brasil. “Antes de tudo, a esquerda precisa se reinventar. Ser capaz de governar não é sentar numa sala com pessoas e pensar em propostas por elas. A população precisa se governar, transformar-se em um verdadeiro ator social. É inaceitável não termos um grande poder popular”, declarou e acrescentou: “Temos conselhos consultivos para tudo no Brasil, mas nenhum poder de deliberação, veto e gestão”.

Já a pesquisadora Raquel Rolnik afirmou que já é hora de romper com as ambiguidades das favelas e dos assentamentos; que na hora de construir as bases eleitorais elas existem, mas na hora de construir políticas de qualidade elas não estão inseridas. “Ambiguidade é muito pior do que assumir a inexistência. A realidade das favelas é negociar aqui, e depois negar ali”, afirmou. Raquel questiona também essa política que pensa apenas nos períodos eleitorais. “Tudo que se faz em uma cidade tem de aparecer em quatro anos. Despoluir a Baía de Guanabara não é possível nesse período, um transporte de qualidade que interligue toda a cidade tampouco, por isso não é feito. As mudanças profundas não são de interesse eleitoreiro”, refletiu.

Para Monica Cunha, enquanto a favela não fizer parte do projeto de cidade, esta continuará sendo apenas para poucos.” Somos nós que construímos a cidade, mas não podemos fazer parte dela? O sistema socioeducativo tem cor, a favela tem cor e o cemitério tem cor. Hoje a briga é para se manter vivo para poder conseguir transitar na cidade. Que sociedade queremos? Eu perdi o meu filho, mas luto para que outras não percam os seus. A favela tem que gritar junto com o asfalto, porque a cidade é nossa”, afirmou Mônica.

Marcelo Freixo reafirmando o discurso de Monica afirmou que no Rio de Janeiro a dignidade tem CEP. “Passou do túnel Rebouças, o túnel do tempo, é outra cidade”. Sobre a decisão popular, Freixo refletiu sobre o papel que a população deve ter. “Eu não quero apenas ter o direito de mais ônibus, de casa; quero o direito de opinar sobre isso, de poder decidir. Hoje quem decide por nós são os agentes do capital”, disse o deputado estadual que enumerou: estamos vivendo a privatização do espaço público; todo o sistema de transporte está nas mãos de grandes empresas; na educação, quem decide as aulas são as fundações; não temos espaço de cultura público, só a de consumo”.