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Rio de Janeiro para as mulheres?

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Assessora parlamentar do mandato coletivo Flavio Serafini Taliria Petrone escreveu artigo sobre o Dossiê Mulher ISP 2015 (Instituto de Segurança Pública) referente ao ano 2014 e publicado na última semana. Confira.

 
Quando um texto começa apontando que vai tratar de um assunto feminista, um monte de gente sai correndo. “Isso é contra os homens!”, “essa coisa é um machismo ao contrário”, “não tem desigualdade, hoje mulher pode fazer tudo!”. Mas feminismo não é um bicho de sete cabeças. As feministas não são contra os homens. Feminismo diz respeito ao cotidiano das mulheres, aos seus direitos, à sua liberdade de ir e vir, à garantia, principalmente, da sua vida. As estatísticas apresentadas pelo Instituto de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro (ISP) no Dossiê Mulher revelam o quanto é importante debatermos a pauta feminista. Só em 2014, no estado do Rio de Janeiro, 420 mulheres foram assassinadas. Este número apresenta um aumento de 18,7% em relação a 2013. São 35 mulheres mortas por mês só no Rio. Ao menos uma por dia. Quase 70% destas mulheres são negras e muitas são assassinadas em decorrência de violência doméstica. Quando dizemos que o machismo mata todos os dias, não são só ideias. São números. São vidas de mulheres perdidas diariamente. O mesmo dossiê aponta que as mulheres aqui no estado são maioria entre as vítimas de diferentes delitos: ameaça, dano patrimonial, estupro, lesão corporal dolosa. Em 2014, das 87.561 pessoas agredidas fisicamente no Rio de Janeiro, 64% foram mulheres. Isso significa dizer que 56.031 mulheres apanharam por aqui no último ano e que 155 mulheres sofreram lesão corporal dolosa por dia no estado. Mais de 55% destas mulheres são negras e 70% dos agressores têm ou já tiveram alguma relação com a vítima. E não para por aí: no mesmo ano, no Rio de Janeiro, foram 4.725 mulheres estupradas, 393 por mês. Todo dia, 13 mulheres sofrem violência sexual no estado. Poderíamos continuar aqui apresentando várias estatísticas – a última pesquisa do Laboratório de Analises Estatísticas Econômicas e Sociais das Relações Raciais (LAESER), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) aponta, por exemplo, que homens brancos chegam a receber 172,1% a mais que as mulheres negras. Mas não bastam os números. Eles devem subsidiar políticas públicas que atuem para mudar drasticamente este quadro. A violência contra a mulher é a parte mais cruel de um machismo que é histórico, cultural, parte da sociabilidade da qual fazemos parte. E se ele foi construído, deve e pode ser combatido. O papel “oferecido” às mulheres desde que nascem é o do cuidado, da família, do silêncio – as bonecas e panelinhas são enfiadas em seu mundo como algo natural. Os meninos aprendem andar de skate, a viver sua sexualidade na puberdade, a brincar de luta e futebol. É claro que, no meio de tudo isso, também aprendem a enxergar a mulher de uma determinada forma. Sim, muita coisa já mudou, mas os números mostram que ainda não é suficiente. Medidas como o projeto de lei que incentiva as escolas a construir espaços de combate ao machismo, apresentado pelo mandato do deputado Flavio Serafini (PSOL/RJ), são fundamentais para a desconstrução de uma educação sexista que reproduz o machismo. Também precisamos cobrar que o poder público fomente a prevenção da violência contra a mulher, mas também que fortaleça espaços de atendimento a estas mulheres vítimas. A ampliação de casas de acolhimento e acompanhamento das mulheres violentadas, sobretudo nos sistema de saúde e assistência social é fundamental, assim como o fortalecimento das DEAMs e treinamento dos servidores públicos da segurança e da saúde, para que saibam atender, acolher e orientar essas mulheres. É fundamental, sobretudo, que as mulheres tenham voz, espaço, que possam ocupar os espaços públicos sem serem violentadas ou silenciadas. Se os números da violência contra a mulher no estado do Rio nos assustam, eles também nos convidam para a organização, mobilização e engajamento nas pautas feministas. Afinal, só mesmo a luta – coletiva e feminista – muda a vida das mulheres.

 

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