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Deu na mídia

Assessor parlamentar Francisco Rebel analisa a matéria ‘Precisa dar certo‘, publicada pela Revista Época, na edição desta semana.

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A matéria sobre UPPs da revista ÉPOCA desta semana já é contraditória na própria chamada de capa. Ao afirmar que “O assassinato (cuja autoria é atribuída a policiais) do menino Eduardo choca o Brasil e expõe as falhas das UPPs” e que “A crise deve ser enfrentada e superada. A alternativa às UPPs seria a volta do caos no Rio de Janeiro”, a revista dá a entender que a mesma polícia que assassina uma criança de dez anos, e é acusada de inúmeras outras mortes e desaparecimentos em favelas, tenha cessado o caos no Rio (aqui deve-se entender Rio como a cidade do Rio de Janeiro, pois, com exceção de Duque de Caxias, o governo estadual escolheu apenas a capital como sede para implementação de todas as outras UPPs). A única interpretação possível é que a “crise”, que se torna evidente com o assassinato de Eduardo de Jesus, não representa um caos ou que o caos só ameaça a voltar no “asfalto” da cidade maravilhosa, já que nas favelas ele nunca deixou de existir – o que é evidenciado pela maneira com que já foi naturalizado pela revista ÉPOCA.

 

A primeira fotografia da matéria mostra uma criança (com o rosto ocultado através de computação gráfica) sentada numa calçada de favela ao lado de um policial que, de pé, porta um fuzil. A legenda – longe de criticar a militarização da vida cotidiana na favela que, ao invés de reduzir a violência nas comunidades, substituiu o conservador arbítrio do comércio de drogas pelo truculento e letal controle policial – diz: “ALIADOS – Policial e menor de idade no Complexo do Alemão”. Chama a atenção não apenas o fato de o policial ser classificado como aliado na mesma favela em que há inúmeras denúncias de violações de direitos cometidas por policiais que, em muitos casos, não permitem sequer que a população preste socorro às vítimas (http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/09/socorro-menor-baleado-no-alemao-rio-e-seguido-por-tumulto.html), mas também o fato de a criança com o rosto escondido ser chamada de menor de idade. Fica nítido que a linha editorial da revista considera que criança ou adolescentes não habitam em favelas. Lá existem “menores de idade” que devem conviver naturalmente com a presença de armas de pesado calibre em seu dia-a-dia tendo aqueles que as carregam como aliados.

A matéria segue alinhada à política implementada pelo governo do estado repudiando até mesmo possibilidade de debate sobre as Unidades de Polícia Pacificadora: “É falsa a discussão sobre se as UPPs devem ou não acabar. A questão deve ser colocada em outros termos: as UPPs não podem fracassar.” Há diversos estudos acadêmicos que criticam a experiência das UPPs e mesmo que propõem conceitos de segurança pública diferentes do implementado pela administração estadual. O jornalismo que deveria buscar prezar pela imparcialidade ou, pelo menos, apresentar a pluralidade de pontos de vista sobre a questão, se reduz a abraçar acriticamente o projeto implementado pelos governos Cabral/Pezão. E mesmo apresentando um histórico de conflitos violentos desde o início do processo chamado de pacificação no Complexo do Alemão, a matéria afirma que “O programa de segurança pública que mudou a vida do Rio de Janeiro está em crise. É necessário coloca-lo de volta no eixo”. Resta saber a qual eixo a matéria faz referência: o de um projeto que busca administrar conflitos violentos através da participação popular na implementação de políticas públicas que garantam direitos aos moradores de favelas ou o que busca segregar um determinado território através de um aparato repressor que faz mudar os atores sociais que portam as armas nas favelas, mas não a dor e as perdas geradas por elas.

 

O afã em se posicionar ao lado do governo faz com que a reportagem ganhe tons anedóticos, como ocorre nas passagens em que busca atribuir aos movimentos sociais contra a violência a responsabilidade por diversos excessos cometidos pela polícia: “Com as manifestações de junho de 2013 e o desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza (…) o programa enfrentou uma grave crise de credibilidade. Os traficantes aproveitaram para tentar retomar o controle do território no Alemão”. Faltou lembrar dos graves fatos ocorridos no próprio Complexo do Alemão envolvendo policiais e comércio de drogas ilícitas. Exatamente depois da cinematográfica ocupação do Alemão, a Operação Guilhotina da Polícia Federal prendeu policiais (dentre eles o delegado Carlos Antônio de Oliveira, que atuava como subsecretário de Operações da Secretaria Especial da Ordem Pública do Rio na gestão de Eduardo Paes) acusando-os de dar proteção e revender armas apreendidas aos operadores do comércio de drogas. Portanto, se o problema de violência no Alemão for observado com seriedade e em sua complexidade levando-se em conta as implicações políticas (e o envolvimento de políticos!) que ajudam a desvendar a continuidade das atividades ilícitas no território ocupado militarmente, algumas afirmações perdem qualquer resquício de seriedade, como, por exemplo: “Os traficantes aumentaram a pressão sobre moradores, incitando-os a não vender alimentos a PMs ou cumprimenta-los na rua. Para descredibilizar a polícia, os traficantes passaram até a fazer campanhas ‘pela paz’”.

 

A reportagem afirma que “O medo faz com que boa parte dos comerciantes do Alemão baixe as portas cedo ou nem abra seus estabelecimentos”, mas justifica a ação como “medida de segurança compreensível”. O mandato Flavio Serafini, em encontro com moradores do Complexo do Alemão na última sexta-feira (data), recebeu diversas denúncias de que a UPP estaria decretando toque de recolher no interior da comunidade. Além disto, há muitos relatos de que policiais estimulam cachorros a atacarem indiscriminadamente moradores que transitam pelas ruas da favela. Reclama-se também que a UPP tem ocupado os poucos espaços de lazer da comunidade como quadras de esporte e instalado postos em escolas, colocando mais crianças em sério risco, no caso de confronto armado. No entanto, este tipo de relato não “dá na mídia”.