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Não calem a Maré

mare (4) O mês de fevereiro vai ficar na história de lutas da Maré, um dos maiores complexos de favelas do Rio de Janeiro. Somente nesse mês, cinco pessoas tiveram o carro fuzilado pelos militares no Salsa e Merengue, sendo que um deles perdeu a perna e está em estado grave; um pedreiro foi assassinado na Vila do João enquanto trabalhava; um dia depois, cinco pessoas foram alvejadas dentro de uma Kombi que fazia o trajeto Maré x Bonsucesso, e, no dia 23, uma criança de 11 anos foi atingida nas costas por um tiro.

A favela passa por um suposto processo de “pacificação”. A presença do Estado se dá por meio de uma ocupação do exército, chamada Força de Pacificação que, segundo o governador do estado, ficará até junho desse ano e pela polícia militar, que assumirá posteriormente o controle do território. Por conta das marcas já deixadas e da violência constante, moradores foram às ruas no dia 23 de fevereiro para reivindicar o direito de viver. Numa região historicamente marcada pela presença de diferentes facções armadas ligadas à venda de drogas e à ação de grupos milicianos, parece não haver espaço para que o Estado se consolide institucionalmente como mais um ator da violência direta.

mare (20)Com cerca de 500 manifestantes, o ato partiu da praça da Vila do João para a Linha Amarela. Diferentemente do histórico mês de junho de 2013, em que a polícia militar atacou os manifestantes com balas de borracha e gás lacrimogênio, na Maré, além destes aparatos, tinham balas de fuzis disparadas pela própria polícia, traçantes, tanques de guerra e medo da morte. O ato de ontem mostrou inúmeros sentimentos contraditórios: uma situação de desesperança e revolta, uma maneira de expor o que se passa naquele local e o medo da exposição, a dor da perda e a coragem da luta. A maré resiste à violência pela presença Estado e à violência causada pela a ausência dele.

Durante a marcha, ao sairmos da Avenida Brasil e voltarmos para dentro do complexo de favelas, 3 caminhões com dezenas de militares do exército atravessaram em nossa frente com jovens cabos e soldados armados com fuzis apontado na direção de manifestantes e moradores, como se sua função fosse conter uma ameaça que ali se apresentava na face daqueles rostos negros e assustados, que reivindicavam um tratamento digno por parte do Estado. Também havia barricadas, nas quais os soldados se escondiam com suas armas em punho apontada para os que passavam. Esse olhar que vê os favelados e manifestantes como inimigos não parece ser capaz de construir uma política de segurança pública centrada na paz e na garantia de direitos.

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Não é com a guerra que vamos conquistar a paz. Não é embrutecendo nossas forças armadas e submetendo nossa população ao medo que vamos resolver o problema. Ou a gente discute a situação da nossa polícia, uma discussão séria sobre a segurança pública, buscando soluções eficazes ou a guerra às drogas vai continuar matando mais jovens, pobres e negros, acuando e calando nosso povo diante de tanta brutalidade.

Não podemos aceitar calados, não podemos deixar que calem a nossa voz, a voz da maré, a voz dos trabalhadores. Já dizia Galeano: “Na luta do bem contra o mal é o povo que entra com os cadáveres”

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