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CHILE, O GOLPE E OS GRINGOS

11s

Por Gabriel Garcia Marquez 

No final de 1969, três generais do Pentágono jantaram com quatro mi­litares chilenos numa casa  dos subúrbios de Washington. O anfitrião era o então coronel Gerardo López Angulo, adido aeronáutico da missão militar do Chile nos Estados Unidos, e os convidados chilenos eram seus colegas das outras armas. O jantar era em homenagem ao diretor da Escola de Aviação do Chile, general Carlos Toro Mazote, que chegara no dia anterior para uma temporada de estudos. Os sete militares comeram salada de frutas e assado de vitela com ervilhas, beberam vinhos suaves da remota pátria do sul — onde havia pássaros reluzentes nas praias enquanto Washington afundava na neve — e falaram em inglês sobre a única coisa que parecia interessar aos chilenos naquele momento: a eleição presidencial de setembro.

À sobremesa, um dos generais do Pentágono perguntou o que faria o exército chileno se o candidato da esquerda, Salvador Allende, ganhasse a eleição. 0 general Mazote respondeu:

— Tomaremos o palácio de La Moneda em meia hora, ainda que te­nhamos de incendiá-lo.

Um dos convidados era o general Ernesto Baeza, atual diretor da Segu­rança Nacional do Chile, que acabou dirigindo o assalto ao palácio presidencial no recente golpe e deu a ordem de incendiá-lo.

Dois dos seus subalternos daqueles dias se celebrizaram na mesma jornada: o general Augusto

Pinochet,presidente da Junta Militar, e o general Javier Palácios, que parti­cipou da refrega final contra Salvador Allende. Também se encontrava à mesa o brigadeiro Sérgio Figueroa Gutiérrez, atual ministro de Obras Públicas, e amigo íntimo de outro membro da Junta Militar, o marechal-do-ar Gustavo Leigh, que ordenou o bombardeio aéreo ao palácio presidencial. O último convidado era o atual almirante Arturo Troncoso, agora comandante da base naval de Valparaíso, que fez o expurgo sangrento da oficialidade progressis­ta da marinha de guerra e iniciou o levante militar na madrugada do 11 de setembro.

Aquele jantar histórico foi o primeiro contato do Pentágono com ofi-ciais das quatro armas chilenas. Em outras reuniões sucessivas, tanto em Washington como em Santiago, chegou-se ao acordo final de que os milita­res chilenos mais ligados à alma e aos interesses dos Estados Unidos toma­riam o poder caso a Unidade Popular ganhasse a eleição. Tomaram a decisão a frio, como uma simples operação de guerra, sem levar em consideração as condições reais do Chile.

A ação já estava planejada, e não apenas por causa das pressões da Interna­tional Telegraph & Telephone (ITT), mas por razões bem mais profundas de política internacional. 0 organismo que a pôs em marcha foi a Defence IntelligenceAgency do Pentágono, mas sua execução ficou a cargo da Naval íntelJigence Agency, que centralizou e processou os dados de outras agên­cias, incluindo a CIA, orientada politicamente e subordinada principalmente ao Conselho Nacional de Segurança. Era natural que o projeto fosse enco­mendado à Marinha, e não ao Exército, porque o golpe do Chile devia coin­cidir com a Operação Unitas — manobras conjuntas de unidades norte-americanas e chilenas no Pacífico. Estas manobras foram realizadas em setembro, o mesmo mês da eleição, e era natural que houvesse em terra e no ar chilenos toda espécie de aparatos bélicos e homens treinados na arte e na ciência da morte. Por essa época, Henry Kissinger disse em particular a um grupo de chilenos:

— Não me interessa nem sei nada sobre o sul do mundo, dos Pireneus para baixo.

O plano já estava concluído até o último detalhe, e é impossível pensar que Kissinger não estivesse por dentro dele, e nem o próprio presidente Nixon.

O Chile é um país estreito, com 4.270 quilômetros de comprimento e 190 de largura, e com dez milhões de habitantes calorosos, dois milhões dos quais vivem em Santiago, a capital. A grandeza do país não se fundamenta na quantidade de suas virtudes e sim no tamanho de suas exceções. A única coisa que produz com absoluta seriedade é o cobre, mas é o melhor do mundo, e seu volume de produção é apenas inferior ao dos Estados Unidos e da União Soviética. Também produz vinhos tão bons como os europeus, mas exporta pouco porque quase tudo é bebido pelos chilenos. Sua renda per capita, de 600 dólares, é das mais elevadas da América Latina, mas quase a metade do produto interno bruto é repartido por apenas 300 mil pessoas. Em 1932, o Chile foi a primeira república socialista do continente, e tentou a nacionalização do cobre e do carvão com o apoio entusiasmado dos tra­balhadores, mas a experiência durou apenas 13 dias. Tem a média de um tremor de terra a cada dois dias e um terremoto devastador a cada três anos. Os geólogos menos apocalípticos consideram que o Chile não é um país de terra firme mas uma encosta dos Andes num oceano de névoa, e todo o ter­ritório nacional, com suas pradarias de salitre e suas mulheres afetuosas, está condenado a desaparecer num cataclismo.

Os chilenos são as pessoas mais simpáticas do continente. Gostam de viver e sabem viver o melhor possível, e até um pouco mais, porém têm uma perigosa tendência ao ceticismo e à especulação intelectual.

— Nenhum chileno acredita que amanhã é terça-feira—disse-me uma vez outro chileno, e tampouco ele acreditava. No entanto, apesar dessa in­credulidade de fundo, ou talvez graças a ela, os chilenos conseguiram um grau de civilização natural, uma maturidade política e um nível de cultura que são suas melhores exceções.

 De três prêmios Nobel obtidos pela América Latina, dois foram chilenos. Um deles, Pablo Neruda, foi o maior poeta do século XX. Kissinger devia saber de tudo isto quando respondeu que nada sabia do

mundo, porque o governo dos Estados Unidos já conhecia até o penamento mais recôndito dos chilenos. Investigou-o em 1965, sem permissão do Chile, numa inconcebível operação de espionagem social e política: a Operação Camelot.

 Foi uma investigação sub-reptícia mediante questionários muito precisos, submetidos a todos os níveis sociais, a todas as profissões e ofícios, até os últimos recantos do país, para estabelecer de modo científico o grau de desenvolvimento político e as tendências sociais dos chilenos. No questio­nário destinado aos quartéis figurava uma pergunta que cinco anos depois 05 militares chilenos voltaram a ouvir no jantar de Washington: “Qual será a atitude caso o comunismo chegue ao poder?” A pergunta era capciosa. Depois da Operação Camelot os Estados Unidos sabiam com certeza que Salvador Allende seria eleito presidente da República.

O Chile não foi escolhido por acaso para esta pesquisa. A antigüidade e a força de seu movimento popular, a obstinação e a inteligência de seus di­rigentes, e as próprias condições econômicas e sociais do país permitiam vislumbrar seu destino. A análise da Operação Camelot o confirmou. O Chile ia ser a segunda república socialista do continente, depois de Cuba. Portan­to, o objetivo dos Estados Unidos não era apenas impedir o governo de Sal­vador Allende pára preservar os investimentos norte-americanos. O propósito maior era repetir a experiência mais cruel e bem-sucedida jamais feita pelo imperialismo na América Latina: Brasil.

A 4 de setembro de 1970, como estava previsto, o médico socialista e maçom Salvador AUende foi eleito presidente da República. O plano, no entanto, não foi posto em prática. E a explicação mais aceita é também a mais folclórica: alguém se enganou no Pentágono e pediu duzentos vistos para um suposto orfeão naval que na realidade era composto por especia­listas em derrubar governos, entre eles vários almirantes que sequer sabiam cantar. O governo chileno descobriu a manobra e negou os vistos. Este per­calço, supõe-se, determinou o adiamento da aventura. Mas a verdade é que o projeto fora avaliado a fundo: outras agências norte-americanas, em es­pecial a CIA e o próprio embaixador dos Estados Unidos no Chile, Edward Korry, consideraram que o plano era apenas uma operação militar que não levava em consideração as condições atuais do Chile.

De fato, a vitória da Unidade Popular não provocou o pânico social es­perado pelo Pentágono. Pelo contrário, a independência do novo governo em política internacional e sua decisão em matéria econômica criaram de imediato um ambiente de festa social. No decurso do primeiro ano foram nacionalizadas 47 indústrias e mais da metade do sistema financeiro. A re­forma agrária expropriou e incorporou à propriedade social 2,4 milhões de hectares de terras produtivas. O processo inflacionário foi estancado: con­seguiu-se o pleno emprego e os salários tiveram um aumento de 40%.

O governo anterior, presidido pelo democrata-cristão Eduardo Frei, ini­ciara um processo de nacionalização do cobre. Essa medida consistiu em comprar 51% das minas, e só pela mina El Teniente pagou mais do que o preço total da empresa. A Unidade Popular recuperou para a nação com apenas um decreto todas as jazidas de cobre exploradas pelas filiais de com­panhias norte-americanas, a Anaconda e a Kennecott. Sem indenização. O governo calculava que as duas companhias tiveram em 15 anos um lucro excessivo de 80 bilhões de dólares.

A pequena burguesia e os estratos sociais intermediários, duas grandes forças que poderiam apoiar um golpe militar naquele momento, começa­vam a obter vantagens inesperadas, e não às custas do proletariado, como sempre ocorrera, mas às custas da oligarquia financeira e do capital estran­geiro. As forças armadas, como grupo social, têm a mesma idade, a mesma origem e as mesmas ambições da classe média, e não tinham motivo, sequer um álibi, para apoiar um grupo minguado de oficiais golpistas. Consciente dessa realidade, a democracia cristã não só não apoiou a conspiração mili­tar mas se opôs a ela decididamente porque a tinha em conta de impopular dentro de seu próprio eleitorado. Seu objetivo era outro: sabotar de todas as formas a boa saúde do governo para conquistar os dois terços do Congresso na eleição de março de 1973. Com essa base parlamentar, podia determinar a destituição constitucional do presidente da República.

A democracia crista era uma grande formação interclassista, com uma base popular autêntica no proletariado da indústria moderna, nas peque­nas e médias propriedades rurais, e na burguesia e na classe média das cida­des. A Unidade Popular representava o operariado menos favorecido, o camponês; a classe média baixa das cidades.

A democracia cristã, aliada ao Partido Nacional de extrema direita, con­trolava o Congresso. A Unidade Popular controlava o poder executivo. A polarização dessas duas forças ia ser, de fato, a polarização do país. Curiosa­mente, o católico Eduardo Frei, que não acredita no marxismo, foi quem melhor aproveitou a luta de classes, estimulou-a e exacerbou-a, com o pro­pósito de tirar o governo do eixo e precipitar o país pela ladeira da desmo­ralização e do desastre econômico.

O bloqueio econômico dos Estados Unidos por causa das expropriações sem indenização e a sabotagem interna da burguesia fizeram o resto. No Chile se produz tudo, de automóveis a pasta de dentes, mas a indústria tem uma identidade falsa: nas 160 empresas mais importantes, 60% eram de capitais estrangeiros, e 80% de suas matérias-primas, importadas. Além disso, o país precisava de 300 milhões de dólares anuais para importar artigos de consu­mo e outros 450 milhões para pagar o serviço da dívida externa. Os créditos dos países socialistas não remediavam a carência fundamental de reposições, porque toda a indústria chilena, a agricultura e o transporte eram baseados em peças norte-americanas. A União Soviética teve de comprar trigo da Austrália para enviar ao Chile, porque ela própria não o tinha, e, por inter­médio do Banco da Europa do Norte, de Paris, fez-lhe vários empréstimos substanciais em dólares. Cuba, num gesto que foi mais exemplar do que decisivo, mandou de presente um navio carregado de açúcar. Mas as neces­sidades urgentes do Chile eram descomunais. As alegres senhoras da bur­guesia, a pretexto de racionamento, e das reivindicações excessivas dos pobr saíram à rua fazendo soar suas panelas vazias. Não era casual, mas proposital e significativo que aquele espetáculo na rua de peles de raposa pratea e chapéus floridos ocorresse na mesma tarde em que Fidel Castro termina va sua visita de trinta dias que fora um terremoto de agitação social.

A última dança feliz de Salvador Allende

 O presidente Salvador Allende compreendeu então, e o disse, que o povo tinha o governo mas não o poder. A frase era mais alarmante porque Allende con -servava por dentro uma semente legalista que seria o germe de sua própria destruição: um homem que lutou até a morte em defesa da legalidade teria sido capaz de sair pela porta da frente do La Moneda, com a cabeça erguida, se o Congresso o destituísse dentro do marco da constituição. A jornalista e política italiana Rossanna Rossanda, que o visitou naquela época, o encon­trou envelhecido, tenso e cheio de premonições lúgubres, no diva de cretone amarelo onde haveria de repousar o cadáver crivado de balas e a cara des­truída por uma coronhada de fuzil. Até os setores mais compreensivos da democracia cristã estavam contra ele na ocasião.

— Inclusive Tomich? — perguntou-lhe Rossanna.

— Todos — respondeu Allende.

Na véspera da eleição de março de 1973, na qual se jogava seu destino, Allende se conformaria se a Unidade Popular obtivesse 36% dos votos. No entanto, apesar da inflação desenfreada, do racionamento cruel, do ritmo das panelas alvoroçadas, obteve 44%. Era uma vitória tão espetacular e de­cisiva que, quando Allende ficou no gabinete sem mais testemunhas que seu amigo e confidente, o jornalista Augusto Olivares, fechou a porta e dançou sozinho uma cueca (dança popular peruana que se baila também no Chile e outros países da América do Sul).

Para a democracia cristã, era a prova de que o processo democrático pro­movido pela Unidade Popular não podia ser enfrentado com recursos le­gais, mas faltou-lhe visão para medir as conseqüências dé sua aventura: é um caso imperdoável de irresponsabilidade histórica. Para os Estados Uni­dos era um sinal muito mais importante do que os interesses das empresas expropriadas; era um precedente inadmissível no progresso pacífico dos povos do mundo, mas em especial para os da França e da Itália, cujas condi ções atuais tornam possível a tentativa de experiências semelhantes às d Chile. Todas as forças da reação interna e externa se concentraram em um bloco compacto.

Em compensação, os partidos da Unidade Popular, cujas rachaduras internas eram mais profundas do que se admite, não conseguiram chegar a um consenso em relação aos resultados da eleição de março. O governo fi­cou sem recursos, por um lado pressionado pelos que achavam que se devia aproveitar a radicalização das massas para dar o salto decisivo na mudança social e, por outro, pelos moderados que temiam o espectro da guerra civil e acreditavam que podiam chegar a um acordo razoável com a democracia cristã. Agora se vê com clareza que esses contatos, por parte da oposição, não passavam de manobra para ganhar tempo.

A CIA e locaute patronal

A greve dos caminhoneiros foi a gota-d’água. Por sua geografia incomum, a economia chilena está à mercê do transporte rodoviário. Paralisá-lo é paralisar o país. Para a oposição, era fácil, porque o sindicato do transporte era dos mais afetados pela escassez de peças, e se encontrava além disso ameaçado pela disposição do governo de nacionalizar o transporte com equipamentos soviéticos. A paralisação se manteve até o fim, sem um único momento de desânimo, porque era financiada do exterior com dinheiro vivo. A CIA inundou o país de dólares para apoiar o locaute patronal, e essa moeda estrangeira acabou no mercado negro, escreveu Pablo Neruda a um amigo na Europa. Uma semana antes do golpe não havia mais azeite, leite e pão. Nos últimos dias da Unidade Popular, com a economia arrasada e o país à beira da guerra civil, as manobras do governo e da oposição se concentraram na esperança de modificar, cada qual em seu favor, a correlação de forças dentro do exército. A jogada final foi perfeita: 48 horas antes do golpe, a oposição conseguira afastar os comandos superiores que apoiavam Salvador Allende, e colocar em seu lugar, um por um, numa série de manobras magistrais, todos os oficiais que estiveram no jantar de Washington.

 No entanto, naquele momento, o xadrez político escapou ao controle de seus protagonistas. Impelidos por uma dialética irreversível, eles próprios terminaram convertidos em peças de um xadrez maior, mais complexo e politicamente mais importante do que uma maquinação consciente entre o imperialismo e a reação contra o governo do povo. Era um terrível confron­to de classes, um feroz conflito de interesses contrariados cujo clímax tinha de ser um cataclismo social sem precedente na história da América.

O exército mais sanguinário do mundo

Um golpe militar, nas condições chilenas, só podia ser sangrento. Allende sabia.

 — Não se brinca com fogo — dissera à jornalista italiana Rossanna Rossanda. — Se alguém acredita que no Chile um golpe militar será como nos outros países da América, com uma simples troca de guarda em La Moneda, engana-se redondamente. Aqui, se o exército sair da legalidade, haverá um banho de sangue. Será a Indonésia.

 Essa certeza tinha um fundamento histórico. As forças armadas chile­nas, ao contrário do que se fazia crer, intervieram na política sempre que sentiram ameaçados seus interesses de classe, e com uma tremenda cruel­dade repressiva. As duas constituições nacionais em um século foram im­postas pelas armas e o recente golpe militar era a sexta tentativa dos últimos cinqüenta anos.

O ímpeto sanguinário do exército chileno vem do berço, na terrível es­cola da guerra corpo a corpo contra os araucanos (naturais da Araucânia, hoje província chilena), que durou trezentos anos. Um dos precursores se gabava, em 1620, de ter matado com as próprias mãos, numa única investida, mais de duas mil pessoas. Joaquín Edwards Bello conta em suas crônicas que, durante uma epidemia de tifo exantemático, o exército tirava os doen­tes de suas camas e os matava com um banho de veneno para acabar com a peste. Durante uma guerra civil de sete meses, em 1891, houve dez mil mor­tos numa única batalha. Os peruanos garantem que durante a ocupação de Lima, na guerra do Pacífico, os militares chilenos saquearam a biblioteca de dom Ricardo Palma, mas que não usaram os livros para leitura e sim para limpar o traseiro.

 Com mais brutalidade foram reprimidos os movimentos populares.  Depois do terremoto de Valparaíso, em 1906, as forças navais liquidaram aorganização dos trabalhadores portuários com um massacre de oito mil pessoas.

 Em Iquique, no início do século XX, uma manifestação de grevistas se refugiou no teatro municipal, fugindo da tropa, e foi metralhada: houve dois  mil mortos. Em 2 de abril de 1957 o Exército reprimiu um protesto civil no  centro comercial de Santiago com um número de vítimas que nunca se pôde  esclarecer porque o governo escondeu os corpos em enterros clandestinos. Durante uma greve na mina de El Salvador, no governo de Eduardo Frei, 1 uma patrulha militar dispersou à bala uma manifestação e matou seis pessoas, entre as quais várias crianças e uma mulher grávida. O comandante da praça era um obscuro general de 52 anos, pai de cinco filhos, professor de geografia e autor de vários livros sobre assuntos militares: Augusto Pinochet.

 O mito do legalismo e da clemência daquele exército sanguinário fora inventado em causa própria pela burguesia chilena. A Unidade Popular o manteve com a esperança de mudar a seu favor a composição de classe dos quadros superiores. Mas Salvador Allende se sentia mais seguro entre os carabineiros, um corpo armado de origem popular e camponesa que estava sob o comando direto do presidente da República. De fato, só os oficiais carabineiros mais antigos apoiaram o golpe.

 Os oficiais jovens se entrincheiraram na escola de suboficiais de Santia­go e resistiram durante quatro dias, até serem aniquilados pelo bombardeio aéreo. Essa foi a batalha mais conhecida da luta secreta travada no interior dos quartéis na véspera do golpe. Os golpistas assassinaram os oficiais que se negaram a apoiá-los e os que não cumpriram as ordens de repressão. Houve sublevaçôes de regimentos inteiros, tanto em Santiago como na pro­víncia, reprimidas sem clemência, e seus promotores foram fuzilados pai exemplo da tropa. O comandante da cavalaria de Vina dei Mar, coro Cantuarias, foi metralhado por seus subalternos. O atual governo fez acreditar que muitos desses soldados leais foram vítimas da resistência popular. Correrá muito tempo antes que se conheçam as proporções reais dessa carnificina interna, porque os cadáveres em retirados dos quartéis em caminhões de lixo e sepultados em segredo. Em resumo, só meia centena de ofi­ciais de confiança, à frente de tropas expurgadas de antemão, encarregaram-se da repressão.

 Muitos agentes estrangeiros participaram do drama. O bombardeio do palácio de La Moneda, cuja precisão técnica assombrou os especialistas, foi feito por um grupo de acrobatas norte-americanos que entraram, com a bandeira da Operação Unitas, para fazer acrobacias aéreas no dia 18 de se­tembro, dia da independência nacional. Numerosos policiais secretos dos governos vizinhos, infiltrados pela fronteira da Bolívia, permaneceram es­condidos até o dia do golpe e iniciaram uma perseguição implacável contra cerca de sete mil refugiados políticos de outros países da América Latina.

O Brasil, pátria dos maiores gorilas, encarregou-se desse serviço. Pro­movera, dois anos antes, o golpe reacionário na Bolívia que tirou do Chile um apoio substancial e facilitou a infiltração de toda espécie de recursos para a subversão. Alguns dos empréstimos feitos pelos Estados Unidos ao Brasil foram transferidos em segredo para a Bolívia para financiar a subversão no Chile. Em 1972, o general William Westmoreland realizou uma viagem se­creta a La Paz cuja finalidade não foi revelada. Não parece casual, no entan­to, que pouco depois daquela visita sigilosa se iniciassem movimentos de tropas e armas na fronteira com o Chile, o que deu aos militares chilenos outra oportunidade de garantir sua posição interna e fazer deslocamentos de pessoal e promoções hierárquicas favoráveis ao golpe iminente.

Por fim, a 11 de setembro, enquanto se acelerava a Operação Unitas, pôs-se em prática o plano original do jantar de Washington, com três anos de atraso, mas exatamente como fora concebido: não como uma quartelada convencional e sim uma devastadora operação de guerra. Tinha de ser assim, porque não se tratava simplesmente de derrubar um governo, mas de im­plantar a tenebrosa semente do Brasil, com suas terríveis máquinas de terror, tortura e morte, até que não restasse no Chile nenhum vestígio das condições políticas e sociais que tornaram possível a Unidade Popular. Quatro meses depois do golpe, o balanço era cruel: quase 20 mil pessoas assassinadas, 30 mil prisioneiros políticos submetidos a torturas selvagens, 25 mil estudantes expulsos e mais de 200 mil trabalhadores desempregados. A etapa mais aura, no entanto, ainda não terminara.

A verdadeira morte de um presidente

No momento da batalha final, com o país à mercê das forças desencadeadas pela subversão, Salvador Allende continuou apegado à legalidade. A con­tradição mais dramática de sua vida foi ser ao mesmo tempo inimigo congênito da violência e revolucionário apaixonado, e ele acreditava tê-la resolvido com a hipótese de que as condições do Chile permitiam uma evolução pacífica para o socialismo dentro da legalidade burguesa. A experiência lhe ensinou tarde demais que não se pode mudar um sistema pelo governo e sim pelo poder.

Essa comprovação tardia deve ter sido a força que o impeliu a resistir até a morte nos escombros em chamas de uma casa que sequer era a sua, uma mansão sombria que um arquiteto italiano construiupara ser a casa da moe­da e terminou convertida no refugio de um presidente sem poder. Resistiu durante seis horas, com uma submetralhadora que lhe fora presenteada por Fidel Castro e era a primeira arma de fogo que Salvador Allende jamais dispa­rou. O jornalista Augusto Olivares, que resistiu ao seu lado até o final, foi feri­do várias vezes e morreu esvaído em sangue no hospital público.

Por volta das quatro da tarde, o general de divisão Javier Palácios conse­guiu chegar ao segundo andar, com seu ajudante, o capitão Gallardo, e um grupo de oficiais. Ali, entre as falsas poltronas Luís XV e os vasos de dragões chineses e os quadros de Rugendas do salão vermelho, Salvador Allende os esperava. Tinha na cabeça um capacete de mineiro e estava em mangas de camisa, sem gravata, e com a roupa suja de sangue. Tinha a submetralhadora na mão.

Allende conhecia bem o general Palácios. Poucos dias antes dissera Augusto Olivares que aquele era um homem perigoso que mantinha contatos estreitos com a embaixada dos Estados Unidos. Logo que o viu aparecer na escada, Allende gritou: — Traidor — e o feriu numa das mãos.

Allende morreu numa troca de tiros com esta patrulha. Em seguida, todos os oficiais, num ritual de casta, dispararam sobre o corpo. Por último, um subofícial lhe destruiu o rosto com a coronha do fuzil. A foto existe. Foi feita pelo fotógrafo Juan Enrique Lira, do jornal El Mercúrio o único que teve permissão de fotografar o cadáver. Estava tão desfigurado que sua mulher, Hortensia Allende, não teve permissão de descobrir o rosto quando lhe mostraram o corpo no caixão.

Fizera 64 anos no último mês de julho e era um leonino perfeito: tenaz, decidido e imprevisível.

— O que Allende pensa só Allende sabe — me dissera um de seus mi­nistros. Amava a vida, amava as flores e os cachorros, e era de uma galanteria um pouco à antiga com bilhetes perfumados e encontros furtivos. Sua vir­tude maior foi a coerência, mas o destino lhe concedeu a rara e trágica gran­deza de morrer defendendo à bala o espantalho anacrônico do direito burguês, defendendo uma Corte Suprema de Justiça que o repudiara e iria legitimar seus assassinos, defendendo um Congresso miserável que o decla­rou ilegítimo mas que ia sucumbir para fazer o gosto dos usurpadores, de­fendendo a liberdade dos partidos de oposição que venderam a alma ao fascismo, defendendo toda a parafernália ulcerada de um sistema de merda que ele se propusera a acabar sem disparar um tiro. O drama ocorreu no Chile, para desgraça dos chilenos, mas há de passar para a história como algo que aconteceu sem remédio a todos os homens deste tempo e que ficou em nossas vidas para sempre